Elogio

Fico feliz quando elogiam meu trabalho. Não é ego. Quem olha de fora vê o resultado pronto. Uma tela limpa, uma marca que parece ter nascido daquele jeito, um texto que se lê sem esforço. Ninguém vê as versões que ficaram pelo caminho, a noite em que desmontei tudo porque um detalhe não fechava, o arquivo que abri de novo no dia seguinte só pra mudar uma coisa que talvez só eu fosse perceber. E eu percebo. Isso me cansa às vezes, mas é também a parte de mim que eu não trocaria. Existe uma voz aqui dentro que revisa antes de qualquer cliente, gestor ou colega. Ela é mais exigente que todos eles juntos. Pergunta se dava pra ser mais simples, se aquilo resolve mesmo ou só ficou bonito, se estou entregando o meu melhor ou só o suficiente pra passar. Na maioria dos dias eu escuto. Em alguns, confesso, queria que ela descansasse um pouco. Por isso o elogio chega diferente. Quando alguém diz “ficou muito bom”, não ouço como aplauso. Ouço como sinal de que todo aquele esforço que ninguém viu chegou do outro lado. Que a cobrança fez sentido. É quase um alívio. Muita gente confunde gostar de reconhecimento com vaidade. Pra mim, vaidade é querer plateia pra qualquer coisa. O que eu sinto se parece mais com o de quem cuidou de uma planta por meses e um dia alguém repara que ela floriu. A pessoa não fez a flor, mas esteve lá todos os dias. Não sei se um dia vou aprender a me cobrar menos. Talvez nem deva. Mas aprendi a aceitar o elogio sem me desculpar por ele, sem responder “ah, não foi nada”. Foi alguma coisa, sim. Foi bastante.

Tempo

Tem gente que passa a vida brigando com o relógio. Corre atrás de prazo, empilha compromissos, tenta caber mais coisa num dia que continua tendo as mesmas 24 horas de sempre. E no fim da corrida, sobra a sensação de que o tempo ganhou de novo. Mas talvez a briga esteja errada. Talvez o tempo não se vença pela velocidade, e sim pela presença. Como lutar contra o tempo? Escreva. Escrever é uma forma de deixar um pedaço de agora resistindo ao amanhã. Um texto guarda um jeito de pensar, uma dor, uma alegria específica de um momento que, sem registro, se dissolveria como qualquer outro dia comum. Não é sobre vencer o tempo no sentido de pará-lo. É sobre deixar prova de que você passou por aqui de um jeito que só você passaria. Como viajar no tempo? Leia. Ler é entrar na cabeça de alguém que pensou tudo isso antes de você, às vezes, séculos antes. É ouvir uma voz de outro lugar, outra época, outro jeito de ver o mundo, sem sair da cadeira. Nenhuma máquina do tempo faz isso melhor do que um livro bem escrito. Como desacelerar o tempo? Esteja presente. O tempo não anda mais devagar quando você olha para o relógio. Ele anda mais devagar quando você para de olhar. Presença é isso: parar de viver a próxima hora enquanto ainda está nesta. É raro. E é o único jeito real de esticar um momento — não fazendo-o durar mais, mas prestando atenção nele enquanto dura. Como fazer valer o tempo? Execute. Ideia guardada não conta como tempo bem usado. Plano que nunca sai do papel é só ansiedade disfarçada de produtividade. O tempo só rende quando vira ação — mesmo pequena, mesmo imperfeita. Fazer é o que transforma hora em resultado. Como perder tempo? Scrolle. E aí tem o jeito mais fácil de todos de deixar o tempo escapar: o dedo descendo a tela sem pensar, pulando de vídeo em vídeo, sem lembrar de nenhum deles daqui a cinco minutos. Não é descanso. É anestesia. E a diferença entre os dois é que uma recarrega e a outra só passa o tempo — literalmente. No fim, as cinco perguntas são a mesma pergunta, feita de jeitos diferentes: o que você está fazendo com as horas que tem? Escrever, ler, estar presente e executar são formas de habitar o tempo. Scrollar é só uma forma de deixá-lo passar por cima de você.

Inquietude

Percebo que há em mim uma certa inquietude, mas não consigo traduzi-la em palavras. Quero mudar, sei como, preciso mudar, mas não sei por onde começar; e, a cada dia, essa sensação se intensifica. “Observe que há tristeza, mas não há ainda um plano. Contudo, a maioria dos bons planos surge de uma inquietação. Grandes líderes que impactaram a humanidade eram pessoas inquietas.” – Bispo Miguel Uchôa Muitos diriam que isso é ansiedade; eu acredito ser ansiedade de evolução. Sinto-me em um momento sem saber que caminho seguir, mas sei que preciso sair de onde estou. E quando digo sair de onde estou, não me refiro ao meu trabalho. Hoje, trabalho em um local onde encontro uma paz que não sentia há muitos anos: mais especificamente, há 14 anos. Minha inquietude origina-se, na verdade, de um sentido evolutivo. Talvez eu esteja entrando na chamada “crise da meia-idade”. Em 30/01/2027, completarei 40 anos, e é impressionante o quanto me tornei mais reflexivo e preocupado. Hoje, não dou mais importância às inquietações que eu tinha aos 30; minha preocupação é outra, e tudo gira em torno da “evolução”, seja na vida pessoal, financeira e até amorosa. Por que não? As pesquisas definem a crise da meia-idade como uma fase de transição marcada por reflexões sobre a carreira e a família. Mudanças hormonais, como a queda nos níveis de testosterona, também podem ocorrer nesse período.” Hahaha, engraçado, porém real. Quanto aos níveis de testosterona, meu último exame mostrou que estão normais, então posso ficar tranquilo. Contudo, o que mais me toca nessa frase são as reflexões sobre a carreira, a família e a passagem do tempo. Às vezes eu tento não pensar, mas a seguinte questão sempre surge na minha mente: como será meu futuro? Confesso que, por vezes, sinto certo medo. Por causa disso, vivo com uma certa inquietude. Não sei dizer se ela me prejudica ou me ajuda, mas uma coisa é fato: ela está presente no meu dia a dia. E você, que está lendo, sente essa inquietude?

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